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Relação Risco-Retorno

Bem-vindo!

Como se diz em bom português:

Quem não arrisca, não petisca!

Curiosamente, o ditado também se aplica ao investimentos. Hoje vamos falar sobre a relação do risco e da rentabilidade de um investimento.

Risco

Risco é a probabilidade de o resultado ou o retorno de um investimento ser diferente do resultado ou retorno esperado. Isto inclui a possibilidade de perda parcial ou total do investimento original1.

Em finanças, a medida mais utilizada para medir o risco é o desvio padrão. O desvio padrão é, simplesmente, o quão dispersos os valores estão em relação à média.

Para exemplificar comparemos uma ação A a uma ação B.

A ação A vale 40€ no primeiro dia que transaciona na bolsa e 60€ no segundo. A ação B é valorizada em 30€ no primeiro dia e 70€ no segundo.

O preço média é igual em ambas (50€), contudo, a ação B é tida como mais arriscada — ou volátil —, uma vez que o seu desvio padrão (20) é mais elevado do que o da ação A (10).

O desvio padrão funciona não só para ações singulares, como para fundos, o que permite a comparação do risco entre vários ativos. Para ativos com igual risco, o investidor à partida escolherá o que tem melhor retorno. Contudo, como se pode comparar ativos com níveis de risco diferentes? Isso depende de vários conceitos que iremos ver a seguir.

"Successful investing is about managing risk, not avoiding it" - Benjamin Graham
"Successful investing is about managing risk, not avoiding it" - Benjamin Graham

Relação Risco-Retorno

O retorno de um investimento está geralmente relacionado com o nível de risco do mesmo: de um investimento arriscado espera-se um retorno mais elevado. Esta relação permite explicar a rentabilidade de ações quando comparada com obrigações ou depósitos a prazo: na primeira existe a possibilidade de perder o investimento, nas outras não, daí as ações terem geralmente um maior retorno a longo prazo.

No entanto, nem todo o risco é igual. Em finanças, existem dois tipos de risco: risco sistemático e não sistemático (ou idiossincrático)2.

O risco sistemático é inerente ao mercado (representado por um índice, como o MSCI World Index ou o S&P 500), isto é, afeta todos os seus constituintes. Um excelente exemplo é a pandemia que afeta o mundo atualmente, que causou uma descida brusca e generalizada em todo o mercado. Em relação a este tipo de risco, não há nada que um investidor possa fazer, a não ser proteger-se utilizando ativos fora do mercado (p.e., obrigações), ou seja, alocar parte do seu portfólio a outros ativos.

O risco não sistemático, ou idiossincrático, aplica-se a certas ações individuais ou setores. No caso de ações individuais, exemplos de riscos idiossincráticos são más decisões da direção — como a emissão de demasiada dívida —, alteração de leis que afetam as operações da empresa — como a perda de licença da Uber para operar em Londres —, ou até eventos inesperados — como a pandemia atual que afetou o setor do turismo muito mais do que outros setores.

O mais recente exemplo do risco idiossincrático em ação é a falência da empresa de aluguer de carros Hertz, que levou o seu maior investidor, Carl Icahn, a perder 2 mil milhões de dólares, cerca de 12% do seu património.

Ademais, este risco não se aplica só a ações, mas também a outros investimentos. Um exemplo é a compra de uma casa como investimento, ou seja, para alugar. Se a casa compuser uma parte signitficativa do portfólio, este terá um elevado risco idiossincrático uma vez que qualquer problema que possa afetar a renda da casa terá um impacto considerável no portfólio.

“An investment in knowledge pays the best interest.” - Benjamin Franklin

O lado positivo deste género de risco é que é facilmente minimizado ao diversificar o investimento por vários setores e países, uma vez que é menos provável que múltiplos setores e países sejam afetados simultaneamente por certos eventos.

Ao investir num ativo, espera-se que a rentabilidade obtida seja maior quanto mais elevado o risco incorrido. Contudo, a rentabilidade apenas é proporcional ao risco sistemático incorrido, uma vez que o risco não sistemático pode ser diversificado e, portanto, não é recompensado pelo mercado.

Prémio de Risco

A relação entre risco e retorno é um conceito interessante, mas creio que mais interessante ainda é a noção de prémio de risco. Prémio de risco, isto é, o prémio que um investidor recebe por arriscar o seu capital, é a diferença entre retorno esperado de um investimento arriscado e a rentabilidade de um investimento sem risco. O objetivo do prémio de risco é permitir ao investidor entender qual é o valor do risco que está a tomar.

Utilizemos um exemplo.

Primeiramente, é necessário definir um investimento sem risco: é um investimento em que não há a possibilidade do investidor perder o capital investido. Contudo, a sua aplicação na prática é mais controversa, não havendo consenso sobre quais ativos têm efetivamente risco zero. Posto isto, assumamos uma obrigação do tesouro a 10 anos dos Estados Unidos como não tendo risco, que tem um retorno atual de 0.67%.

Se eu comprar um fundo de índice cujo retorno esperado seja de 5% anuais ao final de 10 anos, então o meu prémio de risco será de 4.33%. Neste caso, provavelmente vale a pena arriscar, uma vez que 100€ investidos a 4.33% anuais durante 10 anos perfazem 153€.

No entanto, em Outubro de 2018, a mesma obrigação oferecia uma taxa de juro de 3.2%. Neste caso, o mesmo fundo de índice só ofereceria um prémio de risco de 1.8%. Valerá a pena? Depende do perfil de risco do investidor, dado que 100€ investidos a 1.8% durante 10 anos retorna apenas 120€.

Concluindo, o prémio de risco é útil para o investidor poder tomar decisões mais informadas na altura do investimento que poderão ser benéficas para o seu futuro. Contudo, não é possível prever o mercado, portanto estimar o retorno futuro de um investimento tem sempre uma grande margem de erro. Apesar disso, pode ser proveitoso para o investidor saber que quanto maiores as taxas de juro, menos atrativos se tornam os investimentos que comportam algum risco.


Espero que este artigo tenha sido vantajoso para perceberes a relação entre o risco e o retorno de um investimento. Até à próxima!