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Obrigações: O que são? Como diferem de ações?

Obrigações são geralmente utilizadas como uma proteção para a volatilidade do mercado acionista. Mas porquê? O que torna as obrigações atrativas neste cenário? Como é que diferem de ações?

Se pretendes descobrir a resposta, continua a ler!

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O que é uma obrigação?

Imaginemos este cenário: uma organização precisa de dinheiro para investir num novo projeto ou para aumentar a sua força de trabalho e não tem capital suficiente para o fazer. Neste caso, pode pedir um empréstimo ao banco, mas a taxa de juro é demasiado alta ou inclui cláusulas restritivas (como a empresa não poder emitir mais dívida até pagar o empréstimo); ou até emitir ações, mas a empresa não pretende perder controlo inerente a esse processo. Felizmente, costuma haver uma terceira opção: emitir obrigações.

Uma obrigação (bond em inglês) é, basicamente, um empréstimo: só que em vez de a origem do empréstimo ser um banco, é um investidor. Além disso, a taxa de juro tende a ser mais baixa e as condições são geralmente menos restritivas para a instituição.

De maneira semelhante a um empréstimo, as obrigações contêm duas importantes componentes: valor nominal (principal em inglês) e taxa de juro. O valor nominal é simplesmente o montante que a instituição pede emprestado: se uma empresa necessita de 10  000€ para levar a cabo um projeto novo e emite uma obrigação desse montante, então os 10 000€ correspondem ao valor nominal.

A taxa de juro, ou taxa de cupão, é a rentabilidade do dinheiro investido — como se fosse uma conta a prazo — e é apresentada como uma percentagem do valor nominal. Por exemplo, em abril de 2020, Portugal emitiu obrigações a uma taxa de juro de 0,843%, Neste caso, um comprador que invista 100 000€ nesta tranche de obrigações receberá 843€ em juros anuais.


Outra característica das obrigações é poderem ser emitidas tanto por empresas como por governos. Temos vários exemplos em Portugal, como o Estado português, que emite regularmente obrigações — chamadas Obrigações do Tesouro —, empresas e até clubes de futebol.

Além dos atributos mencionados, existem outras propriedades a ter em conta, de entre os quais se destaca a maturidade da obrigação, isto é, o período até que o investidor receba o valor inicialmente investido.

Por fim, é importante notar que obrigações podem cotar numa bolsa de valores, onde podem ser compradas e vendidas, que nos leva à seguinte questão.

Quais as diferenças para uma ação?

Se estás familiarizado com ações, provavelmente já te apercebeste que são fundamentalmente diferentes de obrigações. Enquanto uma ação representa uma percentagem de uma empresa e o seu valor flutua consoante o que o mercado está disposto a pagar, uma obrigação é essencialmente um empréstimo em que o desempenho da organização é praticamente irrelevante — “praticamente”, uma vez que se o desempenho for péssimo pode levar à falência da instituição que desvalorizaria a obrigação.

A distinção entre os dois tipos de ativos pode ser exemplificado usando um cenário hipotético. Olhemos para uma ação da Coca-Cola vale atualmente cerca de $48; neste caso é impossível prever o seu valor dentro de 10 anos. Por outro lado, se a Coca-Cola emitisse uma obrigação a 10 anos de 100 000€ a 2% anuais, o valor acumulado ao final dos 10 anos seria de aproximadamente 120 000€ que resulta num lucro de 20 000€. No caso da ação o valor ao final de 10 anos é uma incógnita, ao invés do da obrigação, que é esperado e calculável, que leva a que as obrigações sejam consideradas menos arriscadas.

Contudo, a relação entre risco e retorno também se aplica neste caso. Em geral, as ações têm uma rentabilidade melhor que as obrigações, uma vez que são um investimento com mais risco.

“Como é que as obrigações são menos arriscadas se também estão cotadas na bolsa? O seu valor não varia?!” - Leitor Atento

Claro! No entanto, como uma obrigação é um ativo cuja rentabilidade não é afetada diretamente pelo desempenho da instituição subjacente, o seu valor não oscila tanto como uma ação. Apesar disto, existe outro fator que causa maior volatilidade no mercado de obrigações: a taxa de juro de outras obrigações.

Imaginemos que hoje Portugal emite uma obrigação a 10 anos com uma taxa de juro de 1%. Passado dois anos, Portugal decide emitir outra obrigação semelhante mas que oferece uma rentabilidade de 2% anual e tem uma maturidade de 8 anos. Neste caso, a obrigação inicial valeria menos no mercado porque outro investidor não iria pagar o mesmo por uma obrigação que, com o mesmo risco, oferecesse um retorno menor. Para acomodar esta hesitação do novo investidor, o valor da obrigação inicial irá diminuir de maneira a descontar a diferença na taxa de juro.

Taxa de juro da Obrigação do Tesouro dos Estados Unidos entre setembro de 2000 e agosto de 2020. Fonte: Macrotrends.
Taxa de juro da Obrigação do Tesouro dos Estados Unidos entre setembro de 2000 e agosto de 2020. Fonte: Macrotrends.

Utilizemos as assunções definidas acima em relação à emissão das duas obrigações. Ao final de dois anos, investidor já recebeu 20€ provenientes dos juros da primeira obrigação e tem 80€ a receber até à maturidade. Ora, um novo investidor que pretenda investir em obrigações iria obviamente comprar a nova obrigação, uma vez que oferece 2% de rentabilidade anual, e nunca compraria a de 1%. No entanto, caso o investidor da obrigação inicial pretenda vender — porque precisa do dinheiro para comprar uma casa, por exemplo —, ele precisa de igualar a rentabilidade que o novo investidor obteria ao comprar a obrigação de 2%. Caso contrário, porque é que o novo investidor a compraria?

Para tal, o investidor terá de vender a obrigação abaixo do valor de compra. A nova obrigação oferece uma rentabilidade total de 16%: 2% anuais multiplicados pelos 8 anos de duração. A primeira obrigação ainda tem a retornar 80€ em juros e 1000€ do valor nominal, resultando num valor total a receber na maturação de 1080€. Portanto, a obrigação inicial precisa de ser vendida a 931,03€ (= 1080€/1,16), para que ofereça 16% de rentabilidade ao fim de 8 anos e, por conseguinte, o novo investidor esteja disposto a comprá-la. Aquando da maturação, o novo investidor teria recebido todos os juros até ao momento mais o capital inicialmente investido (1000€), que perfazem os 16% rentabilidade total, ou 2% anualizados.

Utilizando a mesma lógica, caso a primeira obrigação maturasse ao final de 20 anos e a segunda obrigação fosse emitida ao final de 4 anos, com a taxa de juro de 2%, a obrigação inicial teria de ser vendida a 878,79€ para igualar a taxa de rentabilidade. Como podemos ver, o efeito da emissão de uma obrigação com melhor taxa de juro é maior quanto maior a duração da obrigação que o investidor possui. Esta relação é uma das razões pelas quais as obrigações de longo prazo são mais voláteis que as de curto termo.

No entanto, é crucial ter em conta que apenas o valor de mercado é alterado, não a rentabilidade da obrigação: o investidor irá receber a mesma taxa de juro da obrigação em que investiu, assim como o seu valor nominal quando expirar o prazo. Esta volatilidade só é importante caso o detentor da obrigação pretenda vendê-la antes da maturação.

Riscos de Obrigações

Apesar de obrigações oferecerem menor risco que ações, o seu risco não é nulo. Além da emissão de novas obrigações com melhores taxas de juro, existem outros fatores que afetam o resultado final do investimento num ativo obrigacionista.

Uma obrigação é basicamente um empréstimo, o que significa que partilha alguns dos seus riscos. Por exemplo, se a empresa que emite a obrigação não a consegue pagar, a obrigação entra em incumprimento (default em inglês). Neste caso, a instituição deve tentar vender os seus ativos de modo a obter o montante necessário para cumprir a obrigação. Caso seja impossível, entrará em insolvência e o investidor poderá perder o seu investimento.


Outro risco do investimento em obrigações, mas que também é transversal a outros ativos (p.e., ações), é possibilidade da taxa de inflação ser superior à taxa de juro da obrigação. Por exemplo, em 2019 a taxa de inflação em Portugal foi de 0,3%, ou seja, em média, um produto que custava 10€ em 2019, em 2020 custa 10,03€. Em maio de 2020, Portugal emitiu Obrigações do Tesouro com uma taxa de juro de 0,258%. Isto significa que, se a taxa de inflação se mantiver a 0,3%, no final de 2020 o dinheiro investido irá permitir ao investidor comprar menos do que no início do mesmo ano.

Apesar desta diferença ser bastante baixa, é importante perceber que, ao longo de um extenso período de tempo, o efeito é exponencial e, portanto, quanto maior a diferença entre o retorno da obrigação e a taxa de inflação, maior será a perda para o investidor.

O lado positivo é que esta lógica também se aplica aos montantes numa conta à ordem. Se estes não estiverem a render, o poder de compra irá diminuir num valor igual à taxa da inflação. Portanto, apesar das obrigações portuguesas emitidas em maio de 2020 oferecem uma baixa taxa de juro, em termos de rentabilidade é melhor investir do que manter o mesmo valor numa conta à ordem.


Além destes dois riscos, que não são facilmente mitigáveis, existe também outra possibilidade que não deve ser descartada, mas apenas se aplica quando a obrigação não é emitida na moeda do investidor. Falo do risco de conversão de moeda, que tanto pode aumentar como eliminar o lucro de uma obrigação. Este cenário pode acontecer no caso de o investidor comprar uma obrigação em dólares numa altura em que 1 euro equivale a $1,10 e vender quando a taxa de conversão de euro para doláres está a 1,15.

Taxa de conversão EUR:USD entre agosto de 2010 e agosto de 2020. Fonte: Macrotrends
Taxa de conversão EUR:USD entre agosto de 2010 e agosto de 2020. Fonte: Macrotrends

Utilizemos um exemplo: um investidor pretende adquirir uma obrigação de $10 000 e a sua moeda é o euro. Na altura da compra a taxa de conversão do euro para o dólar está em 1,10, ou seja, $10 000 equivalem a 9090,91€, que é o custo de aquisição da obrigação.

Passado um ano, a obrigação atinge a maturidade e o investidor recebe os $10 000 investidos e $300 em juros. Contudo, nesta altura um euro vale $1,15, ou seja, o montante de $10 300 vale agora 8956,52€, materializando-se numa perda de 134,39€.

Obviamente que o inverso também pode acontecer: o dólar valorizar face ao euro e, aquando da maturação, a taxa de conversão de euro para dólar estar fixada em 1,05, que retornaria ao investidor 9809,52€, perfazendo um lucro de 718,61€.

No caso em que a taxa de conversão se mantém constante, o lucro seria de 272,73€, portanto podemos verificar que o risco de moeda pode ter um efeito significativo na rentabilidade de um investimento.

Apesar do risco de moeda também afetar o mercado acionista, costuma ser uma maior preocupação no caso das obrigações. A razão para isso é o facto das obrigações serem normalmente utilizadas como uma forma de reduzir a volatilidade de um portfólio e, portanto, expô-las à flutuação da taxa de conversão entre moedas nulifica o seu objetivo.

Felizmente, existe o conceito de hedging cambial (currency hedging em inglês) que é uma forma de mitigar ou eliminar o risco inerente à flutuação do valor das moedas, por um custo. Hedging cambial pode ser visualizado como se fosse um seguro contra a volatilidade do valor das moedas: o risco é reduzido por um certo custo. Para usufruir deste processo, é suficiente comprar obrigações ou fundos que empreguem este mecanismo.

Conclusão

Concluindo, obrigações são ativos que acarretam um menor risco e, portanto, uma menor rentabilidade quando comparado com ações, mas simultaneamente oferecem ao investidor alguma segurança. Deve ser tido em conta que ainda assim investir em obrigações acarreta certos riscos, especialmente quando emitidas noutra moeda, dado que expõe o investidor à flutução da taxa de conversão entre moedas — exposição que pode ser mitigada através de hedging cambial.


Espero que o artigo te tenha permitido perceber mais o que são obrigações, as suas características e os riscos inerentes. Caso tenhas alguma questão, não hesites em deixar um comentário. Se achaste o conteúdo do blog interessante, partilha com os teus amigos e familiares para que também eles possam ter um melhor futuro financeiro!

Obrigado por teres lido e até ao próximo artigo!